sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Conto descontado


Subi um degrau para dizer que estou no inferno. Destreinado da escrita poética, da fala, da audição e do passo, cai no mundo póstumo pessoal. Usaria a terceira pessoa, mas este conto (que é relato) é o antídoto perfeito contra este estado letal de insignificância. Aplicá-lo-ei na dosagem possível no ponto certo: minha veia.

Nunca gostei de hospital, sempre temi a injeção, talvez porque ela invade um campo que é só meu (batida no gongo, irrompe egoísmo). Escrever é uma injeção de novos ares que ejetam o caos mental pela urina.

Os mimos que sempre teve... (pausa com baforada) Ah! Mania de me pensar como um personagem alheio. Então, voltando: Fui mimado demais e qualquer resfriado me deixa prostrado. Esta é a justificativa que encontrei, egoisticamente, de me despir de qualquer culpa sobre meu traje moral defeituoso.

Resfriei. Coriza, espirro, tosse... Melhora. A febre acompanhou e sucedeu a semana toda. Esticado na cama e, às vezes, escorado na cadeira, já fazia planos de testamento moral: o que vou deixar para posteridade? O médico cortou meu barato: “É só uma virose”. O que é uma virose? Tudo pode ser virose. Virose não vem de vírus? Toda doença não é um vírus?

Fiquei ressacado da balada que não curti. A febre não passava. Desmarquei tudo. Faltei aulas e trampo. Repousei. Revi todos meus conceitos (todos que lembrei). Não decidi sobre nenhum, mas revi. Agora volto à esteira, dentro do cubículo transparente do laboratório. Vamos correr (rato na roda) porque hoje tem prova na faculdade...

Um comentário:

  1. Caro amigo.

    As vezes
    o que mais queremos
    é descansar do mundo...

    Que a luz da vida
    esteja sempre em teu olhar

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