sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Como o conhecimento espírita pode entender as constelações sistêmicas familiares?


1. Lugar de fala e intenções
Algumas semelhanças aparentes fazem com que muitas pessoas aproximem ou até confundam constelações familiares com determinadas práticas mediúnicas. São, a princípio, duas coisas completamente distintas, mas que nos dão liberdade de pensar e até pesquisar relações.
Antes de aproximar, criticar ou buscar relações a partir dos pressupostos espíritas, é preciso traçar um entendimento mínimo sobre os pressupostos dessa outra forma de conhecimento, que é a teoria das constelações familiares. Fora disso, acabamos por criticar noções pontuais pelo que elas não são e nada ganhar em termos de entendimento.
Escrevendo para espíritas, vou esboçar um entendimento mínimo (não especializado) sobre noções centrais nas constelações: sistemas, informações, ordens e campo.

2. Afastando relações superficiais
O método das constelações familiares é uma forma de terapia breve e complementar. Assim como as diferentes abordagens da psicologia, trata de acolher o sofrimento humano e trazer à consciência os aspectos de cura e bem-estar. A prática terapêutica funciona basicamente com a representação de uma relação problemática, fornecida por um paciente.
O paciente e seu problema instauram o que se chama de campo morfogenético, que não é senão um espaço objetivo no qual se representam as informações em torno da relação problemática. Representantes podem ser pessoas e é por isso que é comum que a prática seja confundida com mediunidade e o campo morfogenético seja confundido com magnetismo. Não são nem uma coisa, nem outra. Prova disso é que representantes também podem ser pinos ou objetos visualizados apenas pelo terapeuta e pelo paciente em consultas individuais. Assim, podemos afastar suspeitas superficiais de semelhança com o espiritismo.
Relações com o espiritismo podem ser construídas como ocorre com outras aproximações. Por exemplo, há xamãs que se aproximam no aspecto ritual e praticam a constelação a partir da sensibilização instrumental com tambores e técnicas de meditação ou ampliação da atenção às conexões da mente com a ancestralidade. Há também, em outro extremo, mediações jurídicas realizadas em fóruns como modo de propiciar a conciliação entre partes discordantes e aplicações em ambiente empresarial focando o aspecto de conscientização do aspecto organizacional.
Não vejo a constelação acoplada ao espiritismo de alguma dessas formas terapêuticas (a não ser que se queira adotar como atendimento fraterno/social), mas, para interesses de pesquisa espírita, eu destacaria duas conexões que vejo: 1) as constelações fornecem indícios que podem ser aproveitados para pesquisas de reencarnação e saúde; 2) filosoficamente, é possível confrontar as ordens da vida nas Constelações e as leis morais no Espiritismo – isso ajudaria a questionar pressupostos ou aprimorá-los de algum modo.

3. Pressupostos da Constelação: a noção de sistema
Bert Hellinger foi psicólogo, trabalhando com diversas abordagens, e desenvolveu uma observação antropológica que culminou em sua teoria e prática terapêutica. Isso nos chama a atenção de antemão sobre em que ciências localizar seus esforços.
O principal pressuposto de sua teorização está na noção de sistema: uma organização de informações cuja lógica é fornecida pelas próprias informações. Há várias teorias de sistemas que se fundamentam de modo parecido: os sistemas sociais (formas de organização da sociedade); os sistemas individuais (organização da psique humana); os sistemas cibernéticos (organização informática); os sistemas de informação (organização de conhecimentos, como museus e bibliotecas); os sistemas biológicos (organização da vida a partir da evolução das espécies).
Hellinger, como psicólogo e antropólogo, nos permite entender que diz respeito a sistemas culturais. Sua pesquisa foi essa: etnografando diversas sociedade primitivas (em que há o mito vivo e, portanto, se narra a organização social), percebeu regularidades perpassando diversas formações culturais em todas elas; percebendo que eram aplicáveis aos mitos da sociedade ocidental, estabeleceu três ordens gerais da vida em comum (o sistema cultural, que envolve igualmente o social quanto o individual, a cultura como segunda natureza): o pertencimento, a hierarquia e o equilíbrio.

3.1. Ordens da vida em comum
A lei do pertencimento se refere à tendência que temos em imitar e exercer uma função na família ou qualquer sistema de vida em comum (não se pode excluir alguém). A lei da hierarquia deriva da descendência, considerando que quem vem primeiro tem precedência e prioridade no sistema (não se pode ser pai do pai). A lei do equilíbrio se traduz na necessidade de igualmente dar e receber (não se pode depender ou prover tudo).
Longe de serem ideias buscados, são os movimentos sistêmicos ou os modos como as informações podem se organizar na vida. É fácil encontrar exemplos para cada ordem.

3.2. Informação e sua transmissão nos sistemas
Informação não é apenas um dado ou evento que poderia eventualmente ficar registrado no períspirito. Informação sou eu, é o contexto, é um lugar, um acontecimento da natureza... A noção de sistemas faz com que tudo seja informação. As marcas disso, na biologia, ficam evidentes nos traços de evolução das espécies. Na sociedade, os traços arquitetônicos e a vida cultural também registram e levam essas informações. À medida que os traços biológicos, urbanos e comportamentais também são símbolos ou coisas que podemos perceber pelos sentimentos (não lógico-racionais), temos a forma como o campo morfogenético é capaz de representar informações do sistema familiar.
Na terapêutica, cada movimento ou sentimento é valorizado com seus significados. O terapeuta observa o que acontece e intervém com sugestões oriundas das três ordens da vida, capazes de intervir e organizar as informações, fazendo ajustes na representação e propiciando ao ser individual que os faça conscientemente em sua vida... uma reforma íntima.

4. Pesquisas espíritas factíveis sobre Constelação Familiar
Já enunciadas, creio que há duas zonas de contato que podem ser produtivas, sem reduzir a terapia à doutrina ou vice-versa.
I. Durante as constelações, é comum que a causa de um desequilíbrio atual esteja na ação de algum ancestral (pais, avós ou qualquer geração anterior), seja o paciente consciente ou não desses atos. Sem dúvidas, isso gera curiosidade e é possível estudar a possibilidade de que, se formos mesmo “herdeiros de nós mesmos”, aquele ancestral ou alguém a ele relacionado esteja ali encarnado novamente ou até mesmo que o paciente seja médium a sentir e encaminhar uma obsessão espiritual de determinado ocorrido com esses espíritos.
II. As ordens da vida segundo Bert Hellinger são básica e dizem respeito ao que é preciso para harmonizar os sistemas. O mesmo objetivo podem ter as leis morais que, mesmo se referindo à moral, são tratadas como leis. Confrontar suas consequências, filosoficamente, pode ser um método interessante para inclusive aprimorar o entendimento sobre as ordens.
Que mais há de possibilidades de contato? Por um lado, só o acesso ao fenômeno da terapia pode nos possibilitar pesquisas e, por outro, só a relativização desses pressupostos pode propiciar um entendimento teórico prévio ou superficial.

sábado, 23 de setembro de 2017

O 16° Vaca Amarela foi a pior edição de um festival independente em Goiânia

Dois dias de festival em Goiânia. Sexta e sábado (22 e 23 de setembro). O segundo dia ainda virá, mas já é possível e necessário decretar o que foi essa 16° edição do Vaca Amarela, no Palácio da Música do Centro Cultural Oscar Niemeyer: ruídos, ineficiência e queda total dos equipamentos de som por repetidas vezes; inúmeros assaltos relatados no ambiente do festival, sem atendimento da produção; logística básica para o comércio de bebidas totalmente equivocada; atrasos, gafes e falta de profissionalismo da produção no palco; além de inúmeros problemas prévios de informação ao público.
O contraponto foi o talento, profissionalismo e empatia dos artistas diante do público e da (des)organização. Nem artistas, nem público mereciam o descaso e o despreparo da produção neste ano.
Pabllo Vittar é mesmo todo aquele furacão que foi noticiado no Rock in Rio. É uma cantora incrível, com performance única e sensível. Reergueu o show inúmeras vezes, mesmo depois de problemas com a abertura da cortina e de duas panes gerais nos equipamentos de áudio durante o começo do show.
Carne Doce (GO), a segunda atração mais esperada da noite, com público fiel presente, teve show reduzido a cinco músicas por atrasos da produção. Os pedidos de "mais um" não puderam ser atendidos pela banda.
Músicas interrompidas ou pouco audíveis foram a regra em shows como os das maravilhosas Bruna Mendes (GO) e Deb and the mentals (SP).
Houve algumas gafes, como quando o produtor João Lucas convidou o público para cantar "Todo dia", música judicialmente vetada dos shows de Vittar e foi repreendido pelo DJ da cantora no palco.
Mas, enquanto isso, algo grave se passava. Inúmeros assaltos foram relatados, nos ambientes internos ao festival, como os banheiros. Na saída do evento, pessoas denunciavam a situação e pediam ajuda sem encontrar ninguém da produção.
O local do evento, CCON, é grande e já abrigou vários festivais. Porém, por limitações colocadas pela gestão pública, o espaço aberto onde normalmente se passam os festivais não poderia ser utilizado agora. Foram preparados shows internos ao Palácio da Música. Isto é, algo que a produção certamente sabia desde o princípio, mas só comunicou pouco antes do evento.
O espaço, além de pequeno, certamente não teve sequer um profissional de logística em seu planejamento. Bares vazios porque era preciso adquirir fichas. Estavam disponíveis apenas seis filas de caixa para aquisição de fichas (quatro para cartão, duas para dinheiro) em locais apertados e sem sinalização. A propósito, muito demorados: perdi metade do show de Bruna Mendes e todo o show da Sapabonde (DF). Para compensar, tentei comprar fichas para os dois dias de festival - não pode, tem que pegar fila de novo.
A produção ficou muito aquém dos artistas e do público que mobilizou. A impressão que fica (parece que posso escutar essa fala numa reunião de produção do festival) é de que: "ah, é só trazer a Pabllo e colocar ela lá no palco, que o jogo tá ganho". Não. A forte tradição dos festivais alternativos (uns mais outros menos) em Goiânia não merece essa postura alheia da produção do Vaca Amarela. Vão alegar quão difícil é promover ações culturais por aqui, mas #sqn, não vem ao caso.
Enfim, não é assim que se faz um festival. Mas o problema mesmo é que nossos produtores culturais já sabem muito bem disso e fizeram isso aí.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

véspera urgente

vejo um arrastão só de vento
sucumbir na minha seriedade
é um susto que ainda vem
mas não veio: sobriedade.

algo está para acontecer, sinto
sinto isso há alguns anos, é verdade
é véspera suspeita, incompleta
é só e sempre ela, ansiedade?

mas, ta: nada mora sem lar
acuso o vento, recuso a pressa,
elejo o mantra:

"o que eu sou, eu sou em par
não cheguei, não cheguei
sozinho" (trecho de Lenine em "Castanho").

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