sábado, 23 de setembro de 2017

O 16° Vaca Amarela foi a pior edição de um festival independente em Goiânia

Dois dias de festival em Goiânia. Sexta e sábado (22 e 23 de setembro). O segundo dia ainda virá, mas já é possível e necessário decretar o que foi essa 16° edição do Vaca Amarela, no Palácio da Música do Centro Cultural Oscar Niemeyer: ruídos, ineficiência e queda total dos equipamentos de som por repetidas vezes; inúmeros assaltos relatados no ambiente do festival, sem atendimento da produção; logística básica para o comércio de bebidas totalmente equivocada; atrasos, gafes e falta de profissionalismo da produção no palco; além de inúmeros problemas prévios de informação ao público.
O contraponto foi o talento, profissionalismo e empatia dos artistas diante do público e da (des)organização. Nem artistas, nem público mereciam o descaso e o despreparo da produção neste ano.
Pabllo Vittar é mesmo todo aquele furacão que foi noticiado no Rock in Rio. É uma cantora incrível, com performance única e sensível. Reergueu o show inúmeras vezes, mesmo depois de problemas com a abertura da cortina e de duas panes gerais nos equipamentos de áudio durante o começo do show.
Carne Doce (GO), a segunda atração mais esperada da noite, com público fiel presente, teve show reduzido a cinco músicas por atrasos da produção. Os pedidos de "mais um" não puderam ser atendidos pela banda.
Músicas interrompidas ou pouco audíveis foram a regra em shows como os das maravilhosas Bruna Mendes (GO) e Deb and the mentals (SP).
Houve algumas gafes, como quando o produtor João Lucas convidou o público para cantar "Todo dia", música judicialmente vetada dos shows de Vittar e foi repreendido pelo DJ da cantora no palco.
Mas, enquanto isso, algo grave se passava. Inúmeros assaltos foram relatados, nos ambientes internos ao festival, como os banheiros. Na saída do evento, pessoas denunciavam a situação e pediam ajuda sem encontrar ninguém da produção.
O local do evento, CCON, é grande e já abrigou vários festivais. Porém, por limitações colocadas pela gestão pública, o espaço aberto onde normalmente se passam os festivais não poderia ser utilizado agora. Foram preparados shows internos ao Palácio da Música. Isto é, algo que a produção certamente sabia desde o princípio, mas só comunicou pouco antes do evento.
O espaço, além de pequeno, certamente não teve sequer um profissional de logística em seu planejamento. Bares vazios porque era preciso adquirir fichas. Estavam disponíveis apenas seis filas de caixa para aquisição de fichas (quatro para cartão, duas para dinheiro) em locais apertados e sem sinalização. A propósito, muito demorados: perdi metade do show de Bruna Mendes e todo o show da Sapabonde (DF). Para compensar, tentei comprar fichas para os dois dias de festival - não pode, tem que pegar fila de novo.
A produção ficou muito aquém dos artistas e do público que mobilizou. A impressão que fica (parece que posso escutar essa fala numa reunião de produção do festival) é de que: "ah, é só trazer a Pabllo e colocar ela lá no palco, que o jogo tá ganho". Não. A forte tradição dos festivais alternativos (uns mais outros menos) em Goiânia não merece essa postura alheia da produção do Vaca Amarela. Vão alegar quão difícil é promover ações culturais por aqui, mas #sqn, não vem ao caso.
Enfim, não é assim que se faz um festival. Mas o problema mesmo é que nossos produtores culturais já sabem muito bem disso e fizeram isso aí.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

véspera urgente

vejo um arrastão só de vento
sucumbir na minha seriedade
é um susto que ainda vem
mas não veio: sobriedade.

algo está para acontecer, sinto
sinto isso há alguns anos, é verdade
é véspera suspeita, incompleta
é só e sempre ela, ansiedade?

mas, ta: nada mora sem lar
acuso o vento, recuso a pressa,
elejo o mantra:

"o que eu sou, eu sou em par
não cheguei, não cheguei
sozinho" (trecho de Lenine em "Castanho").

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Alterus

- Eu o compreendo.

- Mas entender um problema não é suficiente para resolvê-lo - retrucou seu ímpar.

- Pelo menos ameniza a situação. Só assim é possível, para mim, relevar suas ofensas.

Alterus retirou o leite do fogo e, no primeiro copo, despejou um pouco mais do que restaria para o seu segundo. Pensava no maior mandamento da lei de Deus, o ditado pelo Cristo, "amar o próximo como a si mesmo". Cai bem. Para um café da manhã, de pão, rosca e fruta, a bebida láctea cai bem: digere e fermenta. Se é possível fermentar um novo dia, é porque já foi digerido o que antes se engoliu. Claro, também aqui há dualidade: alimenta, mas às vezes empazina. Ontem, empanzinou:

imagem da internet

Criatura, prostrou-se como criado. É que logo que avistou sua mãe, a contemplou como genitora. Décadas depois da primordial iluminação mundana, reconheceu-se naquele mesmo ontem como uma cria que usava saias.

- Não! Este não é você - rechaçou a mãe.

- Hoje, eu uso saias.

- Por que?

- Porque minha cintura e minhas pernas são para saias. E, no mais, eu quero.

- Saia.

Alterus entendeu que saísse de si, já que não poderia ter a cintura e as pernas que tem. Ser o que é. Mas entendeu a pequeneza da mãe, que não sabe que só se usa calças porque, aqui, demoraram a inventar saias. Diferente de ali.

-  Eu compreendo.

Só quem sabe relativizar a cultura é capaz de compreender a situação toda. "Se eu compreendo", pensara, "cabe a mim amenizar a situação, relevar as ofensas, resignar".

- Mas entender um problema não é suficiente para resolvê-lo - escutou hoje de seu ímpar.
E saiu de saias porque, apesar de entender a mãe, continuavam discordando.

*

- Mas ai é que está, Alterus! Não há o que pensar mais.

- Não, não... ai é que está! Veja bem, meu caro, eu compreendo até isso. Discordar e vivenciar rupturas faz parte da vida. Ainda que sofridas, são compreensíveis e não haveria vida sem diferença.
- Genial. E vou aplaudi-lo se isso mudar o que disse antes: você entendeu, mas entender um problema não é suficiente para resolvê-lo, Alterus. Na discordância só te cabe discordar. Se você simplesmente relevar tudo porque as discordâncias são benéficas à vida, você deixará de discordar e causará malefícios.
- Eu compreendo... digo, digo. Sobre este seu argumento.

Nos estudos de ontem a noite, Alterus folheou Adorno: "A primeira exigência de todas para a educação é que Auschwitz não se repita". A crítica do iluminismo chegou a este entendimento.

- Eu compreendo.
- Não - disse o professor. - É preciso mais do que compreender essa necessidade. Seus estudos se completarão com Paulo Freire na próxima aula. A educação deve ser um ato libertador. Não basta compreender, pois...
- Eu sei. Entender um problema como a história que marcou Auschwitz não é suficiente para resolvê-lo nos dias atuais, aqui no Brasil, com "Bolsonada" e "Temerosos".
- Exato.

*

Naquela noite, depois da repressão da mãe e da lição do professor, saiu com os amigos. Alguma coisa, no final de tudo (ou pelo menos de um dia como este), precisa sublimar. Precisa ser diversão. O som ambiente, naquele bar, lhe relaxava:
"Me rendo aos defeitos mais seculares
Divirto-me depressa
Divirto-me depressa
Divirto-me depressa"

Adorno, que Alterus sempre gostou de ler, o fazia saber que até mesmo a diversão não passa de estratégia do sistema. Roda para rato. Diversão é quando não se fala a sério. Por isso sempre concordava com as discrepâncias dos amigos.

- Eu falo mesmo que a cor da bandeira do Vila Nova é muito feia - disse um grande amigo.
- Mas - constatou Alterus - você torce para o Atlético.

A discordância continuou sem fim, sem diversão também, a despeito de os dois times estamparem a mesma cor na bandeira e até, leu-se no jornal, encomendarem os tecidos na mesma loja em consórcio. Os dois amigos e todos os outros falaram. Alterus, por ser quem é, disse:

- Eu compreendo, mas discordo e preciso ir me deitar.

Todos acharam que Alterus era individualista demais e não deixava livres as opiniões. No sono, sonhou que entrava em um carro que não dirigia, mas ao menos via alguém em quem confiava dirigindo. Deixava que a mãe não estivesse presente. Ela tem sim suas próprias saias. Ele usava saia. Foi encontrar-se com os amigos no lugar mais colorido que pôde, sem dizer que os tinha por mais elevada estima que a si mesmo, pois "amar o próximo como a si mesmo", colocar-se em pé de igualdade com o próximo, no limite, acaba sendo o mesmo sair de si. Quis ter isso resolvido, mas acordou sem se lembrar.

Tomou aquele café da manhã, com seu copo menos cheio que de seu ímpar, e, depois do leite, digeriu tudo o que se passou ontem. Lembrou-se do sonho quando abriu seu livro de leitura atual, com Guimarães Rosa dizendo: "A gente nunca deve de declarar que aceita inteiro o alheio". "Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando".

No almoço daquele dia foi capaz de ir ao restaurante de saia.

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