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Como é ver um planeta desde a esquina

Um menino que brinca de bola corre, apela, cola ai na esquina, onde os carros se encruzilham com buzinas no vácuo da pupila. Seu lugar é o rachado de meio fio, colorido de branco, de sem cor, para demarcar o cantinho de pés, onde não se atropela, se anda onde for. Se olhar para o sol verá manchas nos paralelepípedos da rua hostil e alguém perguntará: o que tens? E ele responderá: uma bola do outro lado da rua, furada. Tal como a bola azul, no nada. JD, 26/06/2015.

O nó nas veias

Concebo um ritmo próprio para viver. Tudo circula em minhas veias de modo responsável, desde as coisas que prezo por manter no trabalho da consciência até os ritos, as catarses e os mitos do inconsciente pessoal e coletivo. Minha postura, em algum lugar baixo no panteão das religiosidades pessoais, se refere aos dramas da vida cotidiana em que a virtualização do mundo nos torna protagonistas sujeitos a grandes sistemas doutrinários que funcionam aquém das vivências. Somos obrigados a viver melodramas nos moldes de nossas rotinas? Somos pessoas angustiadas que vivem pregando totalidades ideológicas, mas vivendo fragmentariedades e multiplicidades, ainda que intimamente. O contato com o diferente, com o outro, com o que não reconhecemos e com o que não nos adequamos é constante e nos desafia as certezas prontas. "Se eu disser que dei nó em minhas veias pra tentar sentir em mim um coração no peito" (O pregador / Violins), quando podia ter me contentado com meu próprio puls...

Cálculo de nudez ocular

No fim das contas que ninguém fez não existe fórmula, soma ou equação capaz de resolver quando é minha vez de subtrair o tempo de um viver são. Sou do palco plano da multidão de corpos vestidos e olhos nus, dissecando o caos de ter razão na intenção que nos conduz. A luta, o embate, o friccionar d'ossos cala... quando sou em quem conta. Afetuosos se tornam os rostos. O mau humor sonha atos roucos. Mas de inocente e domador, multiplico: será que todo mundo tem um pouco? (JD, 23/04/2015)

Muitas verdades

Muitas verdades distraem uma certeza cega de vida. Muitas verdades destroem sua capacidade de dúvida. Todo discurso tem alguém que toma cabresto na lida. Todo discurso tem amém com pouca reflexão retida. Acorde dúvidas de percurso. Presumo que saibas também perguntar, do outro, o recurso. Verdade, por bem, é discurso. De seu uso, não seja refém. Não esbraveje a cada incurso.

Nem sempre

Entre pleonasmos e tautologias a gente pensa saber que tudo... tudo é relativo, até nossos dias, os mais modernos do mundo. Dirigimos, pois, aos linguistas: All. Alle.  Ĉ iuj. Tous. Tutto. Para quê nós, líquidas iguarias, ainda falamos em "tudo"? Relativizemos nossa afirmação: Tudo, nem sempre, é tudo. Ainda lado-a-par com a razão. Pensemos com o coração que somos todos, tudo. Mas nem sempre, sempre. (JD, 18/02/2015)

Pelo poeta

Longe de ser um profetizador de dons, eu moro entre o discurso e a veia. Mas não sou nem falatório nem sangue. Entre eu e você, há todas as coisas sem as quais não seríamos. E somos. Porque as sentimos. A que tons se refere quando fala comigo? Os de sua sala? Do morro-horizonte? Da meia? Há sempre um céu sobre sua gangue. Não sou bicho apartado. O poeta pasta em tudo que há na grama, a menos que olhe as nuvens e o além.

"Maurice": didática militante sob uma poética teatral crítica e bela

Por meia hora e pouco mais sobrou assunto entre Adriane, Jordana e eu após assistirmos "Maurice", peça da Cia. de Teatro Sala 3 , no Teatro Goiânia . Estreou dia 10, vimos dia 11 e haverá reapresentação dia 17 de dezembro de 2014. A dramaturgia trata de homossexualidade e, menos, de religião. Mas assuntamos na porta do teatro zilhões de temas com o eixo da regulação da sociedade. Uma peça que cria o continuum para tanto debate merece aprofundamento e tentarei lançar um olhar crítico sobre "Maurice". Mania de jornalista para quem sabe ser interessante para alguém, carentes que somos de críticos dramáticos. Os rostos (dos atores ou das personagens?) recepcionam o público. Início do século XX europeu, cenografia cinematográfica da literatura de E. M. Forster. O tempo é cronológico obedecendo capítulos da infância castradora e de parcas brincadeiras até os indícios de virilidade tornados descoberta homossexual e contrastes dos personagens esféricos de Maurice Hall e ...