quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Todo passo

Saul vê formigas ao inclinar a cabeça para baixo como quem mede o próximo, primeiro, último e, portanto, único passo deste dia. Sorri às gostosas gotas de chuva a mantê-lo cabisbaixo como quem protege o rosto dos pingos gelados e cristalinos.

Não tinha profissão. Neste passo, porém, calculado em meio segundo, ele pretende ter profissão: assassino. Não golpeará; nenhuma bala sairá de suas mãos em tiros; em nada aplicará força de homem.

Ergue o pé. Ergueu. Respirou calmo mas fundamente em atividade comum do corpo ao mínimo exercício de vida. Impulsionado à diante pelo terço de meio segundo de corajosa covardia, até cientificou-se das formigas trabalhadoras no chão.

Venta agora em todas as direções. Mesmo que levemente ele sente, mas sabe que a única direção que o ar da natureza o levará é a já eleita por sua conspiração pessoal. Avante.

Saul completa noventa e um graus com o primeiro pé que, diga-se de passagem, lhe basta para a decisão. Passo farto, curto, direto e, ainda assim, lento. Tal como a idade avançada que corre mais rápido após os dezoito anos, sua pegada avança sem lástimas do nonagésimo segundo ao último e incalculável grau de seu ato.

Nada cravou. Nem precisou pular. Vê o meio fio antes do asfalto duro. A visão deturpada lhe fez crer no passo horizontal rumo à faixa de pedestres, mas a cena que ocorre agora é outra na mesma. Assassino de si próprio, todo passo daquele dia, do meio fio branco que era borda de sua janela recém-pintada do décimo segundo andar foi um só. O único todo passo do dia, completado. As formigas são gente. Não contemple a tragédia metros abaixo.

Desde que se mudou a cinco dias do andar 2011 ao 2012, pensou sem ciência de si neste momento. Acordou para dar o passo. Seu tombo pode ser fatal para todas as formigas que atingir com todo passo. Acordou para dar o passo. Acordou para dar o passo. Acordou para... parar e ver que o apartamento 2012 é todo novo e requer mobília digna de cada passo seu. Saul quer dar todo passo em piso limpo porque as formigas não merecem ser esmagadas por todo passo de todo mundo.

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