domingo, 30 de outubro de 2011

E as namoradas?


Um dia você será um velho
a não limpar o embaçado espelho;
Recolher-se a ferro-velho, e,
na sarjeta, apostar-se no vermelho.

O que todos vão dizer e vão ouvir sobre afetividade já posso adiantar com a mesma certeza do rompimento necessário do cordão umbilical. “Você tem que namorar!”, mais ou menos direta, esta é a oração da cartilha do senso comum, que todos rezam. Até você. E eu.

E eu, porque, há dois tempos proseava como defensor do casamento no papel de benfazejo caminho livremente obrigatório aos moradores da Terra. E você porque alguma vez já perguntou, talvez numa ocasião sem assunto: “E você, está namorando?”, ao menos.

Um dia você foi um ato falho
imaginou ser mais que um fraco galho
e eu, o otário
da árvore que talho.

Narrando feliz meus projetos de estudo, os bons corres do trampo, o ativismo social e as animadas amizades deste meu período da vida, eis que a interlocutora arcaica lamenta-se por mim: “Mas e as namoradas? Você tem que arrumar namorada para depois poder casar.”

Esse “tem que” para aquariano é o pior insulto, invasão total. Para piorar, a justificativa é “para depois”. Ah! Como é falho o argumento da ambição perante meu desapego individual. Não sei cumprimentar uma moça com vistas primeiras na bunda, na carteira ou na ‘persona pra casar’. E nem quero. Isso é robótico.       

Ninguém vive sozinho. E nem é minha intenção. Mas, mundo, dá para desafogar e me deixar curtir minha solidão livre? O raciocínio mais lógico que encontro agora é o de que, se sou obrigado a namorar e casar logo para satisfazer anseios da sociedade, é porque eu não faria isso voluntariamente, o que induz a repulsa a algo ruim.

Todos temos a ‘energia criativa’. Cada um a desperdiça como quer. Essa energia é tônus vital que proporciona os nós e conexões das redes que formamos. Namorar / casar é algo sério, respeitável e louvável. Mas não obrigatório e condicional à felicidade.

Nota: Se não fosse esse blog, meu traje já seria punk e minha atitude trash. O Descaradamasio é parte do meu alterego social-literário.

3 comentários:

  1. Não sei se seu texto tem múltiplas faces ou se eu que tenho surtos de interpretação. Mas vislumbro inúmeras questões ou pontuações pertinentes.

    Nossa sociedade não adota modelos de relacionamentos sustentáveis, muitas vezes assumimos responsabilidades e atitudes que não queremos e não tem nenhum efeito agradável.

    Temos de aprender a jogar o jogo da sobrevivência. E de tolerar pessoas caretas...

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  2. Interpretou no ponto certo Adenevaldo! É esse lance mesmo de imposição cronológica da sociedade, dos modelos já insustentáveis... ainda na época do "se engravidar, casa" só pq engravidou...

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  3. Esse negócio de todo mundo ficar perguntando "E os namorados?" é bem irritante mesmo as vezes viu..kkk...Adorei o texto João, trabalhou em cima de uma perguntinha simples mas, bem constante no dia-a-dia de muitos jovens.

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