quarta-feira, 6 de julho de 2011

O corvo diz nunca mais

publicado originalmente no Jornal Araguaia, 2011/1.

Ícone mundial do mau agouro, o corvo vem de longe. De 1845. Quando nem mídia existia. Ele vem atazanar o século XXI com sua famosíssima elocução transcrita por Edgar Allan Poe: “Disse o corvo, ‘Nunca mais’.”
Clamores pretéritos não encorajam a juventude que só ouviu o corvo. Os jovens dos anos 60, velhos de hoje em dia, nos dizem: Não há nem sinal das frases de outrora, a juventude morreu! Isolados em qualquer boate, os tatuados e os roqueiros não gritam mais o hino pinkfloydiano, Another brick in the wall. Ah, esses roqueiros de hoje em dia curtem frases curtas, ritmos mansinhos... E repetem “Que você me adora e que me acha foda”, como grito de guerra. Tem base?
De que nos valeu a Diretas Já nos anos 80 ou a Eco 92 e o Protocolo de Kioto? Afinal, hoje o mundo explode em corrupção e desmatamento e os jovens não estão nem ai. Ouvi dizer que existe o Coletivo Jovem de Meio Ambiente, mas para eles a saída é educação ambiental. Que educação ambiental que nada! O certo é punir e castigar os destruidores da Amazônia! Não é? E eles ainda me chamam de ignorante.
Antigamente, havia movimentação e protesto dos Black Powers e dos punks. Já hoje, não vejo mais do que esses jovenzinhos calça-pintada, na vibe de roupas coladas e coloridas a la Restart (que é isso mesmo hein? Ah, sim, uma banda pop!). Prossigamos.
Ilustração: Vinicius Kran
Para finalizar, o pessoal ainda vem me dizer que hoje em dia, tudo você pode fazer pela internet. Melhorar o mundo pela internet? Ah, tenha dó! Outro dia me contaram que existe um site chamado www.avaaz.org e que, a partir dele, milhões de pessoas se manifestavam. Mas cadê as cornetas? E as faixas enormes? Não vão mais sair às ruas?
Bom, dizem que isso tudo é só uma forma diferente de se manifestar num tempo de transformações midiáticas, mas, por enquanto, acho que alguém tem que falar, alguém tem que bradar. Eu só ouço o corvo dizer que nunca, nunca mais irei reencontrar aquele tempo... E no fim das contas, eu sou o corvo.

3 comentários:

  1. Nossa, meus parabéns viu ! Este pra mim é um de seus melhores textos...
    No começo fiquei meio assim, "uaaai, mas cadê o João, quem é esse escrevendo aqui?", mas ao longo do texto fui entendendo sua ideia e achei muito boa.
    E querendo ou não temos que concordar com algumas coisas que o corvo fala não? Afinal nossa geração ficou um pouco "acomodada" com tudo e quase sem reação pra nada - salvo as devidas exceções...

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  2. Você tem as mesmas referências que eu, Du. Deu pra sacar qual é a do texto né...
    Alguns podem não entender muito bem, rsrs.

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  3. Adorei!
    3 grandes Rôu's pro corvo.
    Mas uma pegada.. será que a atual conjutura é a mesma do 'passado' onde possibilitava esses 'jovens' se mobilizarem? será que hoje a pegada não tá bem mais 'avançada' que poucos ou talvez quem sabe, nenhum conseguiu idealizá-la ainda.. vamos corvando e rouzando ^^,
    massa!

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