quinta-feira, 3 de abril de 2014

O avesso criador: uma cena armada

Uma fechada no trânsito de Goiânia nos limiares da Praça Universitária abriu a cena a seguir narrada pelas nossas personagens-figurantes da vida comum contemporânea do ônibus coletivo (028).
- Ei, essa buzina.
- O motorista do busão fechou o cara.
Acelerador e mais buzinas ao fundo.
- Nossa, olha ali.
Dois passageiros percebem uma arma 40 em punho com um dos dois homens abordo no carro. E... parada de ônibus. Desce-sobe de passageiros. O carro desacelerou - alguém mencionou ser polo grafite (e tinha também manchas brancas bem reconhecíveis na semi-pintura) - e parou à frente do ônibus. Depois seguiu caminho. Deu voltas.
- Olha o carro ali de novo! Lá vem ele! Tá com arma na mão!
- Alguém ligue para o 190!
- Vou ligar!.. meu celular descarregou.
- Eles não vêm sem a placa do carro.
- Vou tentar olhar! - e como um super homem, o jovem lança-se à janela a narrar a placa MNx-xxxx..
- Será que o motorista viu a arma? Vamos avisá-lo!
- Motorista, você fechou o cara lá atrás e agora ele está seguindo com uma arma.
- Uai, mas eu não posso parar (e parar pra quê?) - responde relativamente calmo o motorista.
A essa altura, quem tinha livro por ler guardou na mochila, os caras com fone de ouvido já pausaram o som, as fofocas se centralizaram no jogo avesso criador das emoções hollywoodianas desse episódio que segue.
- O carro parou de seguir.
Segundos depois:
- Não, olha ele ali!
Passa estourado o carro e empareia com o motorista do ônibus, que silenciado prossegue sem alarde, tranquilo, treinado.
- É, eles são treinados - afirma uma mulher - Eles recebem treinamento secreto para ficarem calmas nessas horas de aflito.
- Gente, e se o cara atirar?
- Eu tenho coragem de dirigir o ônibus.
- Eu pulo daqui na hora, tem que pular.
- Cara, eles são só dois. No coletivo somos muitos.
- Mas eles podem ter muitas balas, cara.
- A gente abaixa no chão.
- Moço, muito louco isso aqui! Perseguição é o que rola, vei!
- Cara, dá uma emoção, eu não tenho medo não. Eu fico mesmo.
Outros se aprumavam para qualquer evacuação.
O carro sumiu de novo, depois de uns toques não correspondidos pelo motorista.
- Deve ser policial para ter uma arma assim.
- Deve ser bandido. Nesse carro estranho ai.
- Não... é civil. Só pode ser policial civil. Eu tenho um tio que é e ele é boladão assim. Qualquer coisa.
- Ow, os cara é mau, fih!
Nisso, a perseguição cessa totalmente.
- Nossa, parece que foi embora, mas acho que ele não faria nada, sabendo do tanto de gente inocente aqui no ônibus.
- Moço, eu quero ver ali a cara do motorista. Deve estar cagando de medo.
Numa curva, o alarde último:
- Nossa, olha lá, quando virou eu vi o carro vindo de novo lá atrás.
Mais tensão. O carro passa. Não era o mesmo.
- Ufa, ah não, perseguição é tão legal.
Será que havia mesmo uma arma? Duas testemunhas garantem enquanto estimulam uma agitação interna.
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Pouco antes, na escola de teatro, uma turma de atores-alunos se lançava a estímulos em jogos teatrais para criar. Pouco produtivo. Péssimo resultado. Crise artística nos mais conscienciosos. Em laboratório cênico, nada funcionou.
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Criar, dar nome ao mundo, perceber-se pensante e... engaiolar a si mesmo e os outros animais. Essa a característica mais humana, demasiada humana. Engaiolados voltando da aula, do trabalho, em meio de semana. Momentos não-vividos. Eis que a criatividade aflora hollywoodiana e atormentada, extraordinária e incrível - no sentido de que não se pode crer - no episódio do suspense policial real dentro do ônibus com tanto choque moral que trouxe. E no espaço de arte, nada se consegue criar. O ato de criar corresponde a um medo. Esse mundo de cabeça para baixo... retira da arte a criação. É impossível sublimar?

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